DIALOGANDO COM JORGE VICENTE

poemas finais do diálogo poético beijo


até gosto dos espaços, meus dedos se aprazem
com a certeza do porvir. nenhuma espera vazia,
portanto, meu texto tem somente hiatos: evita
lacunas rechaçadas pela lírica.

por vezes nasce um mato no verde chão do meu
quintal e eu não lhe peço licença para extirpá-lo:
é o câncer da grama.

assim cuido do solo, minha casa sorri e nos abriga,
a mim e à minha escrita. vivemos felizes, as três.

e sem muito pensamento contemplamos a lagoa.

sonia regina


a lagoa está parada. interpela-nos o
olhar dos peixes. e os peixes chovem.
chovem como se dependesse deles toda
a água.

eu olho e escrevo um poema. o poema
que se inicia. ou se acaba no olhar de
um verso acabado tarde. talvez os peixes
os entendam. já sei: quando a lagoa, se
abrir,

todos os anjos dormirão nas suas asas.

jorge vicente


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o diálogo poético, na íntegra



beijo – sonia regina e jorge vicente


1.

a tua mão fala.
anima ao gesto,
os meus lábios;

a tua boca me olha.
mais que uma parte
de mim compreende

a profundidade .

sonia regina


2.

o teu corpo
fala.
as mãos sentem
o gineceu
da flor
no colo
dos lábios.

a flor
amanhece.
cala no gesto da
abelha
o alimento de todos
os dedos..

jorge vicente


3.

o teu gesto
fala.
meu corpo
move-se
no movimento
do mel.

a flor
desabrocha.
da abelha,
a cera
na pele
dos lábios.

sonia regina


4.

o teu silêncio
suspira.
é o beijo que
se submete
à génese do
grito.

é apenas um
poema que
renasce da
ventania dos
dedos.

jorge vicente


5.

o teu suspiro
murmura.
é um grito
pendurado
nos lábios
sem beijo.

é apenas um
poema que
venta, tangente
à ponta dos
dedos.

sonia regina


6.

os dedos sussuram
o om e o que resta
dentro da pele.
o coração,

a silenciosa
vertigem do
campo verde
e da casa por
dentro dos olhos.

jorge vicente


7.

a memória rumoreja.
na retina
a vertigem
do olhar,

o cicio
do coração
no silêncio
da mente.
a pele é testemunha.

sonia regina


8.

testemunho a pele
e o orgasmo dos
dedos. as mãos são
as ventosas da árvore
e o tronco

o bramir suave do
pai encharcando o
sol.

jorge vicente


9.

a pele racha, casca
intumescida de
capilares enfartados
da seiva de prazer
nos dedos

pulsa o sol, brando,
no beijo imenso
que testemunha
a escrita.

sonia regina


10.

há um beijo imenso
que pulsa e vibra no
cordão das asas.
um ponto: um ponto
apenas no alto da
estrela,

uma linha luminosa que
separa o lugar dos anjos
para o lugar da palavra.

jorge vicente


11.

a poesia firme atenta
ao pulso, no cordão
das asas perspicazes.

desenrolado, o ponto
de vida [corpo
de canções escritas
numa linha luminosa,
com sensualidade
e ternura] sorri.

nas palavras, os fios
embaralhados.

sonia regina


12.

os fios são os cordões
dos beijos a pele da
carne em fiadas de linhas
e gotas de esteva

alumia o serão dos verões
e serás alumiado pela palavra
maior, o verso escrito por
entre as páginas de um
corso carnavalesco.

jorge vicente


13.

há uma chama na palavra
maior, que derrete beijos.
pingos tornados veios
perfumam a pele, solo
de verões amaciados
no vinho

fibras suportam versos
de carnaval

numa escrita acesa e insone
desfilam páginas obscuras.

sonia regina


14.

a escrita acendeu o fogo
e o alumiou num verão de samba

são os corpo que vencem a poesia
e a dançam numa romagem de água
e chuva. sê como o bambu:

escreve sempre ao sabor do tambor.

jorge vicente


15.

sambam os corpos em brasa, atiçando
a poesia num ritmo de verão acelerado

versos pululam das águas

os poemas que se penduram na escrita
descrevem arcos de palavras, como
bambus ao vento.

sonia regina


16.

danço ao vento e reparto a minha
voz. o pão dado aos vizinhos são
as migalhas dos pombos da minha

rua. um cordel de asa, uma voz sempre
viva - o pião, o tambor de brincar e o
olhar sempre ausente de uma borboleta
passeando.

jorge vicente


17.

venta nos lábios a voz de um verso atento
ao bailado das folhas, mas o dia é de lavra
urbana para a poesia

em frente à igreja já não há pombos, pão
ou migalhas; a oração sussurra, ainda viva
entre os cordéis de lembranças infantis

o passeio de uma borboleta não faz tremer
o pousio dos versos recolhidos nas pálpebras.

sonia regina


18.

o passeio de uma borboleta
amanhece nos meus dedos
e é a palpebra do risco que
desenho no ar

os meus dedos são tudo:
a borboleta pousando,
o sol amanhecendo no
desenho, o poema triturado
na pele e no corpo.

com o dedo amo e renasço
todos os dias, com o dedo
toco os braços de adão
e o faço escrever um verso.

jorge vicente


19.

talvez seja de adão o sopro
que vitaliza as pálpebras,
acordando as letras

contudo

somente teu toque amoroso
o faria renascer, da carne,
num poema

és tu o poeta das manhãs,
com palavras desenhas sóis

cumprem eles as entrelinhas
em elipses suaves; como os
vôos e pousos da borboleta
riscam, coloridos, o ar
da página em branco.

sonia regina


20.

és tu a poetisa da claridade
o beijo dado no amanhecer
da flor selvagem

quando danço, danço com as
palavras e o corpo, os meus
dedos despem-se e voltam a
assinalar o espaço das noites.

és tu a poesia da claridade
e o sol canta como uma vírgula
de luz.

jorge vicente


21.

à vírgula seguem os espaços
e palavras graves agarradas
à linha. cantam, obscurecidas,

com medo do ponto despem-se
de significado exato, dançam

pouco claras como as noites
[o lado agreste dos dias na
mão fechada das trevas] ,

não como a nudez dos teus dedos.

sonia regina


22.

os meus dedos nunca são nus. ou são.
ou são na medida exacta da inocência,
da transparência entre as palavras.

sabes, aquele espaço que existe entre
a letra e a vírgula, entre o coração e
a relva verde do meu quintal.

sabes, existe uma casa onde posso morar
e escrever palavras, daquelas casas que
só existem quando pensamos nelas e as
revemos no olhar da memória.

jorge vicente


23.

até gosto dos espaços, meus dedos se aprazem
com a certeza do porvir. nenhuma espera vazia,
portanto, meu texto tem somente hiatos: evita
lacunas rechaçadas pela lírica.

por vezes nasce um mato no verde chão do meu
quintal e eu não lhe peço licença para extirpá-lo:
é o câncer da grama.

assim cuido do solo, minha casa sorri e nos abriga,
a mim e à minha escrita. vivemos felizes, as três.

e sem muito pensamento contemplamos a lagoa.

sonia regina


24.

a lagoa está parada. interpela-nos o
olhar dos peixes. e os peixes chovem.
chovem como se dependesse deles toda
a água.

eu olho e escrevo um poema. o poema
que se inicia. ou se acaba no olhar de
um verso acabado tarde. talvez os peixes
os entendam. já sei: quando a lagoa, se
abrir,

todos os anjos dormirão nas suas asas.

jorge vicente





2 comentários:

jorge vicente disse...

que maravilha de poema, querida amiga!!!!!!!

muito obrigado por ele!!!

um grande beijinho!
jorge

sonia regina [soreg] disse...

sim, jorge querido, ficou mesmo bom!

muito obrigada pelo bailado!

beijos
da sonia