Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - Clarice Lispector




"Porque enfim ele se dava conta de que não sabia de nada e o peso prendia a sua voz."


"No homem eu sinto a coragem de se estar vivo. Enquanto eu, mulher, sou um pouco mais requintada e por isso mesmo mais fraca "


"Existir é tão completamente fora do comum que se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos."


"Estava sentindo agora uma clareza tão grande que a anulava como pessoa atual e comum: era uma lucidez vazia, assim como um cálculo matemático perfeito do qual não se precisasse. Estava vendo claramente o vazio. E nem entendia aquilo que parte dela entendia. Que faria dessa lucidez? Sabia também que aquela sua clareza podia se tornar o inferno humano. Pois sabia que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade era um risco: "Apagai pois a minha flama, Deus, porque ela não me serve para os dias. Ajudai-me de novo a consistir de um modo mais possível. Eu consisto, eu consisto"."


"não posso ter uma vida mesquinha porque ela não combinaria com o absoluto da morte. Pelos minutos de alegria por que passara, Lóri soube que a pessoa devia deixarse inundar pela alegria aos poucos — pois era vida nascendo. E quem não tivesse força de ter prazer, que antes cobrisse cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar o grande da vida. Essa película podia consistir em Lóri em qualquer ato formal, em qualquer tipo de silêncio, em aulas aos alunos ou em várias palavras sem sentido: era o que ela fazia. Pois o prazer não era de se brincar com ele. O prazer era nós."


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LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco.


2 comentários:

Cecília Cavalcante disse...

Adorei tudo!!
Parabéns pra você.

SR disse...

Obrigada, Cecília!
Fico contente.